domingo, 25 de março de 2012

(in)Justiça em Portugal - um caso real de franchising

O que vou relatar nas próximas linhas é um caso real, que demonstra o enorme risco que é hoje investir em Portugal.

Uma rede de franchisados abriu cerca de 30 unidades. Estamos a falar de um franchising de serviços de valor acrescentado, com investimentos iniciais na ordem dos 500.000 Euros.

O franchisador, vendeu uma ideia de negócio, a qual ao fim de pouco tempo, os franchisados mais informados constataram estar suportada em bases muito pouco éticas, e num modelo operacional ilegal em muitos aspectos, representando sérios riscos de ser multados para os franchisados da rede.

Face aos avultados investimentos, todos os franchisados se empenharam em tentar procurar alguma base boa no negócio, e lutar para conseguir pagar os tremendos investimentos realizados.

Após alguns meses iniciais de funcionamento da franquia, o franchisador, ao verificar que o franchisado já estava completamente nas suas mãos (endividado e agarrado a um contrato leonino), começa a impor fornecimentos e taxas não previstos em contrato, obrigando por exemplo os franchisados a contrarar telefones e utilizar um sistema informatico centralizado no franchisador (mas integralmente pago pelo franchisado), obrigando os franchisados a adquirir toda a especie de produtos e serviços através da sua central de compras, a qual ganhava margens entre 10 a 30% em cima de tudo o que transaccionava.

O franchisador chegou a impor o fornecimento de sreviços de limpesa, apoio jurídico, contabilidade ou outros completamente independentes da actividade do franchising.

Conseguiu muitas cedências dos franchisados ao longo do primeiro ano suportado pela boa fé e ignorância dos franchisados, numa fase em que ainda estavam a aprender o negócio.

Assim que os franchisados começavam a perceber no que se tinham metido e começavam a levantar quaisquer tipo de questões, então a postura do franchisador mudava radicalmente para uma postura prossecutoria e penalizadora, utilizando o seu controlo total sobre o negócio dos franchisados associado à sua fé no não funcionamento da justça, para chantagear os franchisados a aceitar imposições completamente ilegais.

Exemplos das posturas prossecutórias eram assim que um franchisado levantava questões, fazer auditorias mistério, fabricando listagens de incumprimentos e aplicando em consequência desses "supostos" incumprimentos, multas de penalidade de valores substanciais. Estas multas, eram aplicadas sob a forma de emissão de facturas "isentas de IVA?!?!?" com data de pagamento a 8 dias ?!?!?!

Depois o franchisador utilizava esses supostos "valores devidos por motivo de multa" como modeda de troca pelo silêncio do franchisado e pelo seu "dobrar de costas". A conversa era do género: calas-te e pagas o que eu quero, e eu nao te arruino.

Exemplos de actividades penalizadoras eram por exemplo proibir ou barrar quaisquer tipos de fornecimentos a esse franchisado. O franchisador obrigava a que qualquer fornecedor utilizado pelos franchisados, mesmo que os franchisados comprassem directamente ao fornecedor, a ser "registado" na central de compras. Esse registo passava pelo obrigar o fornecedor a pagar-lhe uma percentagem dos valors vendidos à rede a troco do ser acesso à mesma, a assinatura de um contrato com condições como só poder fornecer a quem o franchisador autorizar, e não revelar que pagava qualquer valor ao franchisador. E também fazia jogo com os fornecedores, pois dizia ter acesso livre às contabilidades de todos os franchisados, pelo que se observasse nos seus balancetes valores fornecidos que eles (fornecedores) que não tivessem sido declarados ao franchisador para efeito de pagamento de "comissões" sofreriam penalidades significativas, penalidades estas também aplicaveis caso divulgassem os termos destes "acordos de fornecimento" ou fornecessem a algum franchisado sem sua autorização.

Entre os fornecedores "registados" estava tudo o que possam imaginar. Desde seguros a telefones, copos de plastico, e por aí adiante até aos materiais específicos da actividade da empresa.

Também o franchisador obrigava a que os contratos de arrendamento fossem assinados em seu nome, dizendo aos franchisados que era assim apenas para a obtenção das vantagens negociais que ele enquanto empresa de maior dimensão e estabelecida no mercado conseguiria, algo inacessível ao franchisado. Com isto, celebrava em seu nome desde contratos de água ou luz, até contratos de telecomunicações.

Ao o franchisado se aperceber que até em tudo isto o franchisador colocava margem, e que as condições eram menos vantajosas que as que ele (franchisado) sozinho conseguiria no mercado, o franchisador mandava por exemplo desviar-lhe os telefones para a sua central de atendimento de forma ao franchisado ficar sem clientes, até que o franchisado aceitasse calar-se e pagar oque ele pedia.

Outra forma de pressão era desligar o software dos franchisados, vedando-lhes o acesso quer aos dados que fiscalmente é obrigado a ter, quer aos dados pessoais dos seus clientes, impossibilitando os franchisados sequer de contactar com os seus actuais clientes.

O franchisador chegou até, sem nenhuma vergonha, a contactar directamente os clientes dos seus franchisados e indicá-los para as unidades da rede de sua pertênça (sim o franchisador possuia diversas unidades em concorrência com os seus franchisados).

Em toda esta relação, o franchisador fugia sempre a qualquer documento escrito, e se o franchisado começava a colocar por escrito as suas reclamações ao franchisador, ou se por exemplo contratava um advogado e começava a fazer-se acompanhar por ele nas reuniões com o franchisador, aí o franchisador não olhava a limites para levar o franchisado à ruptura.

Houve franchisados, menos informados, menos apoiados, e menos capacitados financeiramente, que não viram outra alternativa que não fosse aceitar uma situação de quase escravidão, para conseguir pagar os avultados investimentos, quase todos pagos com empréstimos bancários facilitados pelo franchisador, investimentos esses elevados fruto da sobrefacturação colocada pelo franchisador em tudo o que era fornecido, desde as obras, aos equipamentos, até esferográficas e papel, levando os franchisados a gastar muito mais que qualquer operador independente gastou para abrir uma operação identica.

Muitos diziam: só quero conseguir aguentar até terminar o contrato de franquia, e pagar as dividas ao banco, pois já sei que no final, tudo isto ficará para ele (o franchisador - fruto da titularidade dos contratos de arrendamento dedido pelo mesmo e da opção deste unilateral de renovar ou não os contratos e em que condições).

Tudo isto tem vindo a acontecer com um número significativo de franchisados já à 5 anos, em Porugal, país que se quer apresentar como desenvolvido e competitivo.

Alguns dos franchisados mais informados, também se demonstram derrotados, pois tendo detectado as ilegalidades do negócio, tendo sido chantageados e penalizados pelo franchisador, foram apresentar queixa a todas as autoridades que possam imaginar (finanças, autoridade da concorrencia, comissão nacional de protecção de dados, entidade reguladora do sector, polícia judiciária, etc), e até hoje não houve nenhum processo de investigação que prosseguisse e levasse este franchisador a pagar por tudo o que fez.

Assim, este franchisador continua hoje a operar em Portugal, a captar novos franchisados, e a vender unidades em autenticos golpes financeiros, já conseguiu levar à falência alguns franchisados que não aguentaram lutar esta guerra, continua a mostrar uma postura completamente arrogante, a considerar-se acima da lei, pois sabe que em Portugal as instituições ñão funciona.

O responsável máximo deste franchisador chegou a afirmar em reuniões de franchisados: em portugal ninguém tem "sucesso" a cumprir as leis, por isso primeiro fazemos o que queremos e depois logo vemos, pois ou simplesmente as inspecções não funcionam, ou a funcionarem o processo cai em tribunal por falhas processuais.

Este franchiador tem vivido uma vida de quase pequeno milionário, deve dinheiro a inúmeros fornecedores, promove activamente práticas ilegais e viola a lei com a maior das descontrações, porque sabe que está em Portugal, país de brandos costumes (em que por exemplo ao contrario do que se passa noutros países, nenhum destes franchisados enganados contratará uma turma para lhe dar uma carga de pancada) e em que a lei de nada serve pois o sistema judicial e as instituições, na componente da relação entre empresas (direito comercial) não funciona de todo.

Para quem não está por dentro, poderá considerar que o franchisador tem o direito de fazer o que bem entender com os franchisados.

Mas não é bem assim. Dou apenas dois exemplos:
  - legislação de dados pessoais;
  - tratado de roma (legislação da comunidade europeia na área da concorrência).

No primeiro caso, o franchisado, sendo uma entidade juridica e financeira autónoma do franchisador, é o titular da guarda dos dados pessoais dos seus clientes, estando restrito por lei a sua transmissão a terceiros, mesmo no contexto de franquia, pelo que o franchisador "roubar" as bases de dados dos seus franchisados e aliciar os clientes para as suas unidades próprias, é uma clara violação desta lei, e só neste país é que efectivamente ele consegue fazer isto durante anos sem que as entidades responsáveis se manifestem.

No segundo caso, o franchisador não pode obrigar os franchisados a comprar-lhe de tudo, pois no entendimento da legislção comunitária, o fronecimento exclusivo pretende defender o saber fazer ou propriedade intelectual do franchisador. Ou seja, a contratação de serviços genéricos como sejam contabilista, seguros de acidentes de trabalho, serviços de telecomunicações, etc, ficam completamente fora do âmbito do franchisador. Agravando esta obrigatoriedade com o facto de o franchisador usar por exemplo as telecomunicações e os fornecimentos como chantagem, colocando em risco de sobrevivência a empresa por a impossibilitar de operar, não há em qualquer país sério dúvidas de que se estão a cometer as maiores ilegalidades.

Perante este contexto, é difícil criar uma base de crescimento para Portugal, e é difícil dinamizar o empreendedorismo.

Somando a tudo isto o facto de em Portugal as consequências de uma falência de um pequeno empresário serem insuportáveis, barrando-lhe a possibilidade de aprender com o erro e reerger-se com um novo negócio melhor montado, como acontece em tadas economias pujantes pelo mundo, é efectivamente uma aventura de alto risco investir em Portugal.

Devo dizer-vos que inclusive já houve tentativas de divulgar esta história aos Media, para assim tentar fazer justiça, mas sendo pequenos e poucos, não coube nas prioridades editoriais investigar estas histórias a averiguar os factos.

A vontade é de colocar aqui quer o nome da empresa, as suas marcas, e os nomes dos seus responsáveis. Mas em primeiro lugar, a minha educação ética não o permite, e em segundo lugar, alguém que o fizesse ainda se arriscaria a ser processado por este franchisador por difamação, processo mais simples de ganhar pelo franchisador perante a evidência dos escritos online, contra a quase impossibilidade de em tribunal em Portugal provar que estas pessoas estão a cometer verdadeiras atrocidades.

Com a devida descrição, mas aqui deixo o alerta e o testemunho desta história.

Por isso, estejam atentos e tenham cuidado com os vossos investimentos em Portugal.

1 abraço,
Angatú

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Direitos dos Trabalhadores. Quem paga?

Nada como vivermos uma situação para termos uma opinião crítica sobre ela.

Relembro que escrevo sobre a realidade das pequenas e micro-empresas em Portugal, pelo que admito que a realidade das médias e grandes empresas seja dispar da que descrevo, sobretudo porque o equilibrio de forças patrão/trabalhador e substancialmente diferente.

Fala-se muito em Portugal dos direitos adquiridos, e sobretudo dos direitos dos trabalhadores.

Lamentavelmente, na generalidade dos casos, fala-se disto numa perspectiva de guerra patrão/empregado, em que se supõe que o patrão é pouco ético, explora os empregados, e retira dinheiro da empresa para um saco azul, e os trabalhadores por sua vêz são pobre coitados muito trabalhadores, inocentes e desprotegidos que sofrem nas mãos do patrão ditador.

Só neste pressuposto é que se pode compreender que num momento de dificuldades em que a empresa necessita de reduzir custos para sobreviver, tenha que dispôr de verbas significativas para reestruturação e redução dos seus custos, por via da obrigação de indemnizações a funcionários.

Concordemos que esta situaçao não descreve de todo a realidade da maioria das empresas existentes no século XXI !!!!

Vejamos o absurdo: a empresa está em dificuldades financeiras, mas tem que gastar dinheiro (que não tem) para conseguir reduzir os seus custos operacionais. Isto faz algum sentido?

Entendo que as leis são escritas e têm o propósito de equilibrar as relações e proteger as partes mais fracas.

Hoje o trabalhador não é a parte mais fraca da relação trabalhador/patrão sobretudo no caso das pequenas e micro-empresas.

No caso das pequenas empresas, na generalidade dos casos, os patrões estão pouco capitalizados, e têm todos os seus bens comprometidos com a empresa. Ainda mais nos casos de empresas jovens, e ainda a pagar os empréstimos fruto do investimento inicial, em que provavelmente nem sequer houve tempo para constituir reservas de capital para fazer face a momentos mais difíceis.

Assim, para estes patrões, por vezes a redução dos custos operacionais quer por via de reorganização interna de serviços, quer por via de redução de efectivos, é um imperativo de sobrevivência.

Na realidade Kafkiana que se vive hoje em Portugal, não faz qualquer sentido aplicar as mesmas regras de "equilibrio trabalhador/patrão" numa micro empresa jovem e descapitalizada, e num grande empresa nacional com capital disperso em bolsa.

Existe uma lei laboral que define um conjunto de direitos dos trabalhadores. É legitimo que seja definido em lei os direitos de todas as partes de uma relação.

No entanto, muitos esqueçem-se que uma parte significativa desses direitos dos trabalhadores representam custos que terão que ser suportados pelos patrões, e que na realidade actual da economia Portuguesa, o cumprir de todos esses direitos pode ser a formula para levar à ruptura a micro empresa.

Como em tudo na vida, existem pessoas boas e pessoas menos boas. E o facto é que existem muitos funcionários que tendo um patrão ético, que não esconde dinheiro no colchão, e que conduz os seus negócios com transparência e respeito pelos seus trabalhadores, se disponibilizam para abdicar de alguns desses direitos consagrados em lei com vista a um objectivo maior que é a sobrevivência da empresa e a manutenção dos seus postos de trabalho.

Mas o que fazer com aqueles colaboradores que, tendo sido beneficiados ao longo da sua vida na empresa, a quem o patrão deu compensações e previlégios acima das suas obrigações legais por vários anos, ao verem a empresa em dificuldades não olham a estratagemas, nem se preocupam minimamente com a sobrevivência da empresa, pretendendo apenas o seu bem individual, não olhando a meios, e colocando em risco a sobrevivência da empresa, e por consequência dos postos de trabalho de todos os seus colegas???

Não deveria também haver em lei discriminado os direitos dos patrões? Por exemplo: o patrão tem o direito a uma compensação mínima pelo seu investimento de capital e pelo seu trabalho na gestão da empresa, e a ser protegido do oportunismo e falta de ética dos seus trabalhadores.

É que muitos esqueçem-se que num caso de fracasso de uma empresa, o patrão nem sequer a subsídio de desemprego tera direito! Enquanto que o trablhador, além de todos os direitos que tem com o empregador fruto do contrato cessante, ainda tem diversos apoios do estado face à sua situação de fragilidade.

É justo que um trabalhador provoque o encerramento de uma empresa para fazer "pagar todos os seus direitos", à custa da miséria e da fome do seu patrão, e do desemprego de todos os seus colegas de trabalho?

Como dizia um dia destes na televisão o Dr. Medina Carreira, so há direitos quando há dinheiro para os pagar. E neste momento as pessoas têm que se consciencializar que não há dinheiro!!!

Como lida o enquadramento legal Português com este facto brutal? Como estão a encarar patrões e trabalhadores esta realidade?

O que percebo é que o sistema não se consciencializou nem adaptou a esta realidade, pelo que em caso de conflitos nas empresas, estando estas em dificuldades, o caminho é por regra o seu encerramento. Por exemplo, um patrão não têm efectivamente condições financeiras para honrar todas as obrigações legais com os seus trabalhadores. Chegando esta situação a tribunal, o desfecho a esperar é a ordem de liquidação dos bens da empresa para pagar aos trabalhadores. Destroi-se uma empresa, o trabalho de muitos, acaba-se a expectativa de geração de valor futuro, e dividem-se os despojos pelos mercenários sedentos de mais umas pingas de sangue.
Como em tudo na vida, há os éticos, e os que não olham a meios para os fins. Havendo concerteza patrões de ética duvidosa, o que obrigou ao longo dos últimos anos ao desenvolvimento de uma legislação laboral portuguesa que "carrega os trabalhadores ao colo sem riscos" o que em minha opinião tem levado a uma cada vez maior mediocridade e ausencia de brio ética ou profissional, hoje é também realidade que cada vez mais os trabalhadores se tornam patrões por necessidade de sobrevivência e por criação de auto-emprego.

Quando se vêm do outro lado e têm que "pagar os direitos", a maioria acaba por mudar de opinião relativamente ao seu sentido de justiça acerca da legislação laboral existente.

Hoje, com tantos micro-empresários em dificuldades, muitos sequestrados pelas ameaças dos seus trabalhadores, deveria ser criada uma carta dos direitos dos patrões, que premiasse o mérito, o risco e a ética, e protegesse empresas criadas e desenvolvidas com estas bases.

Hoje que pela primeira vez na minha vida me vi na necessidade de reestruturar empresas com vista à redução dos seus custos operacionais, vejo também o quão absurdo é o enquadramento legal Português em termos de legislação laboral.

Hoje a parte mais fraca é o patrão (claro que me estou a referir a jovens micro e pequenas empresas), pelo que deveria existir um regime especial por exemplo para empresas com menos de 5 anos de vida, menos de 1 milhão de Euros de Facturação Anual e menos de 10 colaboradores em que o patrão é também operacional na empresa.
Esse regime deveria proteger mais os direitos do patrão, e simplificar a legislação laboral, numa logica de que estamos a falar de uma fase de muita fragilidade para as empresas, em que a concorrência é duríssima, e em que a bem do empreendedorismo (que tanto de apregoa hoje em dia) é fundamental criar condições para que a empresa possa efectivamente atingir a maturidade.

Porquê 5 anos? Pois este é habitualmente o prazo de maturidade da dívida bancária de apoio ao investimento, e também o prazo legal de amortização da maioria dos gastos de capital.

Porquê até 1 milhão de euros? Porque até esse valor, estimando uma margem líquida do negócio de 3% estamos a falar de estimativas de rendimento para o patrão de 30.000 €/ano, o que no contexto actual é um luxo considerando que muitas empresas jovens estão a apresentar prejuizos ou lucros próximos de zero.

Porquê 10 trabalhadores? Porque estamos a falar de estruturas muito pequenas, em que uma pessoa a mais ou a menos faz muita diferença, e em que toda a burucracia legal tem um peso relativo muito importante nos custos da empresa.

Claro que tudo isto não vale de nada se temos um país em que a lei não se faz cumprir, quer porque os tribunais são caros (e dessa forma inacessiveis às empresas em dificuldades), quer porque são lentos em que as decisões por regra são tomadas quando já não têm qualquer efeito prático por exemplo na defesa da continuidade de uma empresa.

Era fundamental haver também uma via-verde legal para pequenas e micro-empresas, bem como defensores públicos tal como existe para as pessoas sem capacidade financeira, na medida em que as micro-empresas muitas vezes coincidem com um indivíduo.

Também, como em todas as questões legais, deveria haver uma força de investigação significativa que proactivamente fiscalizasse as empresas de forma a filtrar o trigo do joio numa fase ainda pré-conflicto.

Faz parte da minha educação: o trabalho dignifica o homem. O homem é completo quando tem trabalho, família e sentido de pertença social (integração numa comunidade).

Infelizmente, não vejo que este Portugal dê importância a isto, pois não vejo o premiar da criação de trabalho e sobretudo do mérito em desempenhar e desenvolver um trabalho (já para não falar da familia e da integração/convívio social).

O regime proteccionista que temos em que o estado é como uma grande mãe que está lá para todos os que nao têm sem verificar a razão de não ter, premeia a preguiça, o xico-esperto, o subsidio-dependente, enfim, até o trabalhador não ético que tendo sido premiado excepcionalmente pelo seu patrão, e tratado com respeito e consideração, aproveita todas as letrinhas da lei para sacar mais uns tostões no momento de sair porque a empresa simplesmente não lhe consegue continuar a pagar.

Há quem diga que não sou uma pessoa normal. Porque deixei muitas vezes de retirar lucro para mim das minhas empresas para premiar um desempenho que considerei diferenciador, distribuindo o lucro por quem me ajudou a conseguir vencer.

Muitas vezes fui criticado, com o argumento de que no momento em que eu passar por um aperto, nenhum dos funcionários que receberam esses extras se lembrarão de fazer sacrifícios por mim.

Hoje compreendo porque muitos patrões efectivamente pagam o mínimo possível a quem trabalha, não efectivam ninguém, e mantêm um distanciamento dos seus trabalhadores. De facto na minha situação de dificuldade, os trabalhadores que mostram uma compreensão e um compromisso com a empresa são uma minoria.

Este é um sinal muito grave dos valores da sociedade Portuguesa. Este tipo de trabalhadores comprometidos não deveriam ser uma minoria, severiam sim ser uma maioria.

Será que temos maus trabalhadores porque temos maus patrões, ou temos maus patrões porque temos maus trabalhadores.

Aqui, como em tudo na minha vida, penso que os actos ficam com quem os pratica. E que cada um tem que procurar viver bem com a sua consciência, e em todos os momento procurar retirar o melhor das oportunidades que se apresentam pois só assim é que se consegue evoluir e crescer.

Mais uma vez, estou decepcionado com o País, com as leis, com os tribunais, com as instituições... mas sobretudo com as pessoas, pois no final é das pessoas que se trata.

Vou mudar de atitude ou fazer escolhas diferentes? No que tem a ver com os meus valores de base, não.
Continuarei a ajudar quem quiser ser ajudado, a acreditar que as pessoas por natureza são boas, e apenas necessitam de um ambiente e oportunidades que lhes permita mostrar isso, e a olhar para os desafios como oportunidades para crescermos, aprender e fazer melhor.

Mas tenho também que dizer, que o ambiente social Português, o qual se reflecte nas leis, instituições e relações comerciais e laborais, tornam muito dificil passar os dias sem estar constantemente a sofrer decepções.

Há algo que mudarei certamente: passarei a proteger-me mais. Não empreenderei tanto, não me exporei tanto, pois só assim consigo ser fiel aos meus principios, conservando a minha energia e evitando o desgaste que para mim representam as decepções que o contexto vai apresentando.

O meu país, não me permite realizar todo o meu potencial. Enquanto cá estiver procurarei viver de forma mais simples e anónima, mas não consigo mais deixar de procurar oportunidades noutro país em que o mérito seja mais compensado e reconhecido, e em que a responsabilidade pessoal se sobreponha ao proteccionismo maternal de um estado que ao ser tão maternal, castiga quem por seu mérito cresceu e evoluiu.

Portugal precisa de se reestruturar socialmente. Portugal precisa mais que tudo, de uma nova estrutura de valores que atravesse a maioria da sociedade.

Não podemos depositar a esperança nesta mudança em outros que não sejam as leis e as instituições.

Será que eles (as instituições) estarão à altura do desafio??? Se não estiverem, este não será um país para mim nem para a maioria da geração pós 25 de Abril, sobretudo daqueles que não temem sacrificios nem trabalho.

Como já escrevi em outros posts, hoje emigrar e sair de Portugal é quase uma questão de afirmação de mérito, pois cada vez mais entre amigos se fala que quem é bom, sai e vai fazer sucesso noutro país, que quem cá fica é porque não serve para o mundo globalizado.

É triste ver assim a percepção da geração dos 30 e 40 anos.

Com isto, quem conseguiremos trazer para cá?

Estamos de facto condenados a ser um país de trabalho sub-qualificado, barato, e que viva cada vez mais da imigração oriunda de países ainda pior que nós???

Só há direitos quando há alguém com capacidade efectiva para os pagar.

Eu digo: toma o teu destino em tuas mãos, e constroi os teus direitos por teu mérito e não por muleta em leis, ameaças o incapacidades dos outros.

É uma vida triste ter alguma coisa, porque outro foi obrigado a abdicar dela para quea possuíssemos sem que a tivessemos conquistado por mérito.

Que 2012 efectivamente seja o ano da viragem em Portugal, pois para mim será a última oportunidade.

Orienta-te Portugal!

1 abraço,
Angatú

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A Falência do franchising enquanto modelo

Vivem-se tempos difíceis, e apesar de em muitos negócios continuar a haver clientes, o que cada cliente gasta, não para de baixar.

Estou a falar de um cliente concumidor de classe média, claro.

Nestes contextos, os responsáveis das empresas locais (pequeno comercio e serviços - onde se enquadra a maioria das ofertas de Franchising) vêm a sua criatividade desafiada ao extremo na procura de oporunidades para aumentar as receitas, e rúbricas onde cortar custos.

Entre as possibilidades de aumentar a receita, os proprietários e gestores mais bem preparados, irão quase certamente passar pelas seguintes respostas:
  1. Vender mais entre os seus produtos ou serviços actuais a cada cliente;
  2. Aumentar o número de clientes na sua área geográfica;
Tipicamente são estas as soluções que os franchisadores apontam, pois têm um negócio assente num elevado grau de especialização (mercado de nicho, e um modelo de negócio desenhado e optimizado para um âmbito restrito), e assente num conceito de exclusividade geográfica (pois assentam o seu modelo de crescimento e financiamento na venda de áreas georgráficas exclusivas para esse modelo de negócio).

Mas estes dois tipos de soluções, são respostas num contexto de um mercado a funcionar regularmente, em que se pressupõe o facto de existir uma procura relativamente estabilizada (sem contrações drásticas e repentinas, ou alterações estruturais significativas).

Esta não é de todo a situação que o mercado Português vive neste momento. Os grandes números escondem uma realidade dramática nas pequenas e micro empresas de comercio e serviços ao consumidor.

Quando falamos de uma contração do PIB de 3%, muitas pessoas cometem o paralelismo grosseiro de pensar que essa quebra se transmite em igual proporção às diversas empresas, e logo concluem que 3% de redução nem pode ser assim tão máu.

Mas a realidade é que o PIB é um número muito abstracto para medir o comportamento dos consumidores no pequeno comercio (até porque nele não é contemplada uma parte substancial da economia, que é a dita economia paralela, e que é uma parte importante das receitas de muitas micro empresas e profissionais liberais).

Já por exemplo, uma contração de 1% do PIB, pode estar associado a uma contração de 4% no consumo privado. Este númer, o consumo privado, já é mais próximo da realidade que se sente no comercio, mas mesmo assim insuficiente, na medida em que aqui estão a compra de bens alimentares, uma das principais fatias deste número.

Portanto, um decréscimo de 1% no PIB, efectivamente pode traduzir-se numa redução de 20 ou 30% no volume de negócios de um determinado sector instalado numa determinada área geográfica.

O drama em Portugal é que não existem dados estatísticos que permitam este grau de granularidade, pelo que infelizmente muitas vezes os principais responsáveis, acomodados ou ignorantes, acabam por tomar decisões completamente erradas devido aos grandes números não lhes permitirem tomar decisões mais informadas, e sobre um conhecimento mais próximo da realidade.

Toda esta explicação pretende ajudar a perceber, que num momento como este, pode acontecer que um determinado modelo de negócio se torne inviável.

Infelizmente a grande maioria dos franchisadores não faz sequer estudos de viabilidade convenientemente sustentados. Mas imaginando que um determinado franchisado efectivamente fez o seu trabalho de casa em condições, vejamos um caso.

Por exemplo, um estudo de mercado de um franchisador diz que precisa de 4 novos clientes por dia com um valor médio de compra de 1.000 €, para obter uma uma receita média mensal de 80.000 €.
É pressuposto que para ter 4 novos clientes por dia com este valor de compra médio, que é necessário num bairro de classe média, conseguir em média 8 novos visitantes por dia, em que se consegue um rácio de conversão de 50% dos visitantes em clientes.

Então este negócio, necessita de cerca de 160 visitantes por mês, com interesse no produto e com capacidade financeira para potencialmente gastar 1.000 €.

Que percentagem da população de enquadra neste perfil? Podemos pensar que se enquadra neste grupo cerca de 30 % da população numa determinada localização. Sabendo que num mercado concorrencial nenhum novo fornecedor consegue mais que 30% de cota de mercado, vamos admitir que o potencial deste negócio a 5 anos, é atingir 10% de cota de mercado.

Então, em 5 anos, necessitaremos de 160 x 12 x 5 = 9600 visitantes ao longo de 5 anos. O que a corresponder a 10% da população, significa que este negócio necessita de 96.000 habitantes para poder ser viável.

Se considerarmos adicionalmente que um estudo de mercado revelou que um consumidor tipico adquire este tipo de serviços num raio de cerca de 5 km da sua residência,  e que a probabilidade de comprar a mais de 2 km é apenas de 50%, então este negócio só será viável em localizações que compreendam no minimo 48.000 habitantes dentro de um raio de 2 km.

Quantas localizações temos assim em Portugal???

Bem, neste exemplo, imaginei um franchisador que efectivamente fez bem o seu trabalho de casa.

Mas entretanto, o estado alterou o regime fiscal, a procura baixou, o rendimento disponivel das famílias diminuiu, e imaginemos que num espaço de 1 ano, em vez de 30% da populaçao se enquadrar no grupo das pessoas com propensão para comprar este produto, passou a poder apenas considerar-se 10%.

Só isto (e que reflecte em muito o que se está neste momento a passar em Portugal), implica que esta mesma empresa, para ser viável, necessitaria de um volume de população de 144.000 habitantes nu raio de 2km à sua volta!!!

Num cenário destes há que pensar fora da caixa e procurar outro tipo de soluções que passam por:
  1. Diversificar a oferta de forma a endereçar uma percentagem maior da população envolvente;
  2. Ajustar o modelo de negócio de forma a conseguir atrair clientes de zonas geográficas mais distantes.
Estas duas soluções esbarram na maioria dos casos, com os modelos de franchising existentes.

Em primeiro lugar, porque o franchisador desenvolveu o seu modelo de negócio numa base de venda de zonas geográficas exclusivas, numa malha apertada ao ponto de maximizar o potencial de clientes para o negócio à escala nacional, e a assumpção desta nova realidade, obrigaria o franchisador a assumir junto dos seus franchisados que o modelo que lhes vendeu é inviável, e aceitar deles uma rescisão incondicional e as consequentes perdas de receitas. Já viram algum franchisador fazer isto? Eu ainda não.

Em segundo lugar, o modelo do franchisador muitas vezes trás agregado um conjundo de relações (mais ou menos claras) com fornecedores, parceiros de negócio, e empresas conexas, que fazem muitas vezes com que a diversificação da oferta dê poder de escolha aos franchisados, e em sentido inverso, retire poder e autoridade ao franchisdador, o que acaba muitas vezes por levar à existência de inconsistências na rede, que são sempre motivo de atritos entre os franchisados que têm a iniciativa, e os outros que se queixam à rede de concorrencia desleal dos que não fazem igual a eles.

Sim, porque a partir do momento que as diferentes unidades têm ofertas distintas, passa a haver efectivamente um potencial de concorrencia entre elas, sobretudo nas redes que têm um modelo de implantação geográfica com muita granularidade.

Por um lado ou por outro, o facto é que o franchisador, se mantem inerte no rumo, e incapaz de ajustar ou reinventar o modelo de negócio.

Num contexto destes, adicionalmente, os franchisados começam a ver muito rapidamente as suas margens a diminuir, até entrarem em prejuizo, o que perante a incapacidade da empresa em suportar todos os custos, também não conseguem suportar os custos do franchisador.

Em conclusão, num contexto destes, as necessidades da empresa, quer em termos de corte de custos, quer em termos de aumento de receitas, tornam incomportável o modelo de franchising, não só porque este as amarra a um modelo que deixou de ser viável, mas também porque lhe imputa uma sobre-estrutura de custos que o mercado simplesmente deixou de pagar.

Podem muitos dizer que é injusto, mas é a realidade. Uma realidade infelizmente que muitos tardam em reconhecer e aceitar.

Conheço mais de uma dezena de franchisings em Portugal, relacionados com pequenos negócios de comercio ou serviços de bairro. Todos eles apresentam este mesmo comportamento, e por isso digo: para este tipo de negócios, o franchising faliu e deixou de ser um modelo viável.

1 abraço,
Angatú!

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Espiral negativa: situação da economia Portuguesa

É reconhecido por muitos especialistas que mesmo os mais reconhecidos académicos não conseguem explicar na totalidade o que está a acontecer com a Europa, o Euro, e em particular Portugal.

É verdade que nenhuma estrutura ou organização pode viver sistematicamente acima das suas possibilidades, mas será que as respostas que hoje se estão a implementar serão as que menos sofrimento trarão ao povo?

Ponho esta pergunta pois aprendi que o princípio básico da gestão económica é assegurar o bem estar social. Ou seja, entendo isto no sentido de assegurar o máximo de bem estar à maioria da população.

E falando de Portugal, será que este é o caminho que melhor assegura este fim?

Tenho que dizer em justiça dos actuais governantes, que dificilmente alguém aceitaria que se implementassem outras soluções, sobretudo porque lamentavelmente na maioria das escolhas a tomar, não somos nós, povo soberano, que temos o poder de decisão.

Mas olhemos ao que se está a passar.

Gastou-se demais. Estado, empresas e pessoas.

Aprendia eu à meros 8 anos atrás, que o modelo de financiamento ideal para uma empresa era assegurar um rácio de 1 terço de capitais próprios para 2 terços de dívida bancária, pois neste equilíbrio assegurava-se em simultâneo uma base sólida de capitais para a operação da empresa associado a uma alavancagem financeira que permitiria à empresa investir em novas ofertas, novos mercados e ir progressivamente crescendo.

Isto, claro, no pressuposto de uma dinâmica de crescimento. Pois crescimento das empresas gera mais emprego, mais emprego gera mais rendimento disponível, mais rendimento disponível gera mais poupanças para mais investimento e mais consumo para manter a expansão do mercado.

Em resumo, os fundamentos do desenvolvimento económico passam pelo desenvolvimento do consumo, o qual cresce no pressuposto do aumento e distribuição da riquesa por via do emprego.

Hoje observamos um fenómeno em que a riquesa gerada simplesmente está a deixar de ser distribuida dentro do espaço de um estado, em que ela se acumula em produtos e derivados financeiros, nas mãos de uma minoria externa ao estado, que a acumula sem que ela seja reinvestida na geração de mais emprego e mais consumo, e dessa forma continue o ciclo virtuoso do crescimento económico.

Com este fenómeno, gera-se um ciclo em que o crescimento de um determinado estado só é possível perante a geração de dívida, pois o seu consumo (em todos os paises do mundo o objectivo do desenvolvimento económico) terá que ser financiado por aqueles que progressivamente vão extraindo destes países o capital sem que o reinvistam e reproduzam.

Eu esperaria que no processo de crescimento da União Europeia, este facto fosse reconhecido e assumido por todos.

Ouvi de um dos pais fundadores da União Europeia, que o princípio da sua criação e integração de estados como Portugal, era melhorar o nível de vida da generalidade da União, através do uniformizar o nível de vida entre os cidadãos europeus.

Assim, das duas uma:

  • ou o modelo é implementado de raíz de forma a defender e promover o emprego e crescimento das regiões mais deprimidas (como Portugal) - o que quem for intelectualmente honesto tem que reconhecer que não aconteceu, pois os países mais desenvolvidos intencionalmente criaram mecanismos para favorecer o crescimento das suas próprias economias à custa das pequenas economias;
  • ou é assumido que o modelo terá países consumidores e países produtores, e são implementados mecanismos de equilibrio financeiro através da injecção de verbas compensatórias nos países consumidores, pelos países produtores - o que era a assumpção de base dos país fundadores, mas que as actuais gerações de governantes não querem ou não têm a coragem de assumir.
A situação em que vivemos, só pode ser aceite como o interlúdio para um caminho de mais integração na união em que assumidamente um dos dois caminhos acima seja implementado.

Mas, sem saber-mos se efectivamente será para aí que caminharemos, apenas podemos constatar o presente.

E no presente, o que observamos é que face à crise financeira, os bancos reduziram a quantidade de dinheiro a circular na economia. E não há estatísticas que demonstrem o contrario, pois quando falo de economia, faldo daquela que gera a maioria do emprego e do consumo, os quais são a base do bem estar social.

Há claro financiamento para os projectos de expansão internacional de grandes empresas, mas esse dinheiro sendo disponibilizado em Portugal, efectivamente não gera consumo nem emprego significativo em Portugal.

Assim, temos que olhar a economia como a das pequenas empresas e das famílias. E a estes, os bancos têm vindo a fechar a torneira. 

Porque é que isto é motivo de preocupação? Porque associado a isto, muitas empresas que dependem do consumo vêm-se em dificuldades e reduzem as compensações variáveis aos seus funcionários, ou até, em casos extremos, encerram actividade e levam os seus funcionários ao desemprego.

Ora pessoas com menos dinheiro, pessoas desempregadas, pequenas empresas a fechar, gera-se um efeito bola de neve: menos consumo implica menos emprego, o qual implica menos empresas de consumo, o que implica a redução das empresas que vendem as empresas de consumo, e por aí adiante até às empresas que vendem equipamentos... é como se fosse uma máquina gigante de muitas rodas encaixadas umas nas outras a qual está a parar lentamente, e em que a paragem de umas peças apenas significa que outras se lhe seguirão.

As ramificações são inúmeras e incalculáveis. Estamos perante uma daquelas situações em que "o bater das asas de uma borboleta, provoca um tufão no outro lado do mundo".

Esta redução do acesso ao crédito aos particulares e pequenas empresas, foi o prelúdio do que estamos a sentir. Eu pessoalmente notei isso numa data muito específica e que vos posso apontar. Em Maio de 2009, observei uma quebra de receitas nos meus negócios fruto de alterações nas regras de concessão da banca absolutamente claro.

E não há directrizes governamentais que resolvam este problema.

Senão, observem: agora exigem aos bancos rácios de capital mais elevados, ou seja melhores relações entre o dinheiro que têm e o que emprestam. 

Quando este rácio é 100%, se eu tenho 1.000 euros, empresto os mesmos 1.000 euros. Hoje o que se passa é que com 1.000 euros, os bancos emprestam mais de 10.000 euros. É isto que se chama a alavancagem financeira, em que temos um rácio de capital de 10%. Ora os bancos trabalhavam com rácios de capital em alguns casos de 4%, e agora exigem-lhes 9%.

Como se resolve isto? De uma de duas maneiras: ou os donos dos bancos injectam mais dinheiro, ou os bancos reduzem rapidamente o volume de dinheiro que têm emprestado (carteira de crédito).

Hoje, o caminho é óbvio: a redução da carteira de crédito.

Se forem falar com algumas pessoas da banca, eles dizem que não têm culpa, eles querem emprestar, mas as pessoas e as empresas é que não oferecem garantias.

É que o banco só empresta a quem tem algo para dar como garantia. Ou capital, ou um bem de valor.

Voltando às pequenas empresas e familias, se hoje as pequenas empresas e as familias precisam de se endividar, em muitos casos é porque estão a passar dificuldades. Ora se estão a passar dificuldades, não ofereçem segurança aos bancos, pois apresentam um perfil de risco muito elevado.

Mesmo que os bancos mantivessem as regras de classificação de risco, só a evolução da situação económica já afastaria do mercado de crédito uma quantidade enorme de pequenas empresas que à 2 anos atrás eram consideradas boas para crédito.

Fechando esta ideia, todo o sistema se auto-alimenta num caminho de redução cada vez mais acelerada da actividade económica:
  • Menos actividade económica, mais risco nas empresas;
  • Mais risco nas empresas, menos acesso ao capital;
  • Menos acesso ao capital, menos emprego;
  • Menos emprego, menos consumo;
  • Menos consumo, menos actividade ecnómica e assim por diante (estou aqui a simplificar muito, mas creio que dá para entender).
Como é que se para este cíclo vicioso de redução da actividade económica... ou em bom Português, de empobrecimento, falência e fome?

Injectando dinheiro na economia de forma que produza emprego.

Muitos advogam que o caminho é substituir importações por consumo interno, e aumentar as exportações. Mas terá alguém pensado que dezenas de países nas mesmas circunstâncias que Portugal estão a tentar implementar exactamente a mesma receita?

E lembraram-se porventura que enquanto pequeno país, Portugal tem muito pouco a oferecer a países grandes consumidores pois os emergentes já perceberam que o poder económico está onde está o consumo, e todos se estão a fechar para minimizar a entrada de produtos de fornecedores extra-nacionais?

Esta foi uma outra das razões de crescimento da União Europeia. Criar um mercado integrado que tivesse poder negocial junto dos grandes mercados globais como os EUA, Brasil, Russia, Índia e China.

A solução? Em minha humilde opinião, emagrecer violentamente o estado o qual tem sido também um consumidor de recursos não reprodutivos, libertando capital para as pequenas empresas e famílias.

"Pois, isso é o que todos dizem! E mais detalhes, não há?"

Vou tentar:
  • Um dos caminhos seria impedir os bancos privados de financiar as entidades públicas, e assegurar o financiamento destas pelo banco central o qual terá o poder de controlo sob os níveis de endividamento por via da restrição de emissão de mais dívida aos organismos públicos;
  • Como consequência, seria fundamental esse banco central emitir mais moeda de forma a aumentar a disponibilidade de dinheiro;
  • Fruto desse aumento de disponibilidade monetária, libertar os bancos privados a curto prazo de obrigações em termos de rácios de capital, de forma a permitir o aliviar das avaliações de risco e restrições à emissão de crédito;
  • Implementar regulação que obrigue a um rácio equilibrado no funcionamento dos bancos em termos de tipo de empréstimos:
    • Limitar o acesso ao capital para construção (para empresas e privados);
    • Definir um volume de negócio mínimo para equipamentos (se há equipamentos a serem financiados, há empresas a modernizarem-se, a crescer e a gerar empregos);
    • Segmentar as obrigações de volume de negócio em empresas conforme as dimensões das empresas, de forma a assegurar que as verbas disponíveis não são todas sugadas em grandes operações não geradoras de emprego nacional.
  • Em simultâneo com a passagem das dívidas dos países para o banco central, reduzir a carga fiscal sobre as empresas de menor dimensão de forma a que acelerem a geração de emprego e o aumento dos rendimentos dos seus funcionários;
  • Entre as alterações bancárias e estatais, aumentar o rendimento disponível das famílias pois isso fará instantaneamente com que o consumo aumente e a economia começe a recuperar;
  • Por fim, colocar limitações rígidas às tarifas praticadas nos sectores não produtivos (tipicamente denominados de utilities), por via de um benchmark à escala europeia que uniformize os custos de contexto e normalize os rendimentos dessas empresas para que elas não se comportem como um sorvedouro de dinheiros nos países onde são monopolistas, dinheiro esse que muitas vezes serve para alimentar favores de políticos e a riquesa de uma minoria conivente e silenciosa que tudo faz por manter a situação: os accionistas, os gestores de todo dessas organizações e os políticos por elas sustentados (esta é infelizmente a situação em diversas empresas no sector das utilities em Portugal).
Mas tudo isto, estando integrado na união europeia, não depende da vontade dos governantes deste país.

Pelo que, imaginando que eu estaria no lugar deles, e desejava fazer o que acima refiro, na situação actual teria que fazer o que me mandam e ser um bom aluno, de forma a ganhar moral para influenciar as decisões e encostar à parede os países que enriqueceram à custa do nosso endividamento, de forma a assumirem que deixaram a situação chegar até aqui pois ganharam muito com ela, e que agora é hora de regressar ao equilibrio.

Mas, como acima dizia, não sabendo o que vai nas ideias dos nossos governantes, só posso contatar o que observo hoje, e o que vejo é um país a afundar-se de dia para dia.

O que vejo é todos os dias haver mais um amigo ou familiar que é empurrado para o desemprego, e que a cada semana vejo mais um profissional competente a sair do país à procura de novas oportunidades, e que a cada mês é mais um amigo que me diz estar tão bem no país para onde emigrou que não pondera a hipótese de voltar a viver em Portugal, que este será apenas o país para férias curtas de visita à família.

Em paralelo, vejo aumentar o rácio de quadros pouco qualificados que ficam no país, que cada vez mais são os Portugueses que querem viver sem esforço encostados ao estado, pois são os pouco qualificados e os acomodados que vão ficando, pois os ambiciosos e competentes não encontram dificuldades em ter sucesso.

E assim vejo também cada vez mais obscuro o futuro do país, pois serão esses pouco qualificados e esses acomodados que cada vez mais terão o poder do voto, e a capacidade de escolher os nossos futuros governantes, e naturalmente esolherão aqueles que lhes assegurarem de forma fácil aquilo que esses indivíduos não conseguiram por seu mérito.

Lamentavelmente vejo-me num contexto em que entre muitos dos meus amigos e conhecidos, permanecer em Portugal começa a ser associado a insucesso, e me vejo empurrado a abdicar de vez desta nação, e também eu procurar o meu estaço noutras paragens em que o meu talento e esforço sejam devidamente compensados e me permitam uma vida digna.

Entro portanto 2012 expectante. Dos cenários que acima aponto, qual se realizará? Encontrará Portugal este ano um rumo de melhoria da vida de quem com mérito próprio ainda cá quer viver, ou fecharei o ano também eu com os pés no estrangeiro?

Voto por Portugal, mas não nego nenhum cenário, nem entro mais em fundamentalismos nacionalistas.

Que este ano seja o que Deus quiser!

Votos de um 2012 cheio de saúde para todos, pois quem tem saúde, pode tudo!

1 abraço,
Angatú

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Principais falhas nos franchisadores

Falava um dia destes com um colega, e perguntava-me ele: mas porque é que estás tão decepcionado com os Franchisadores em Portugal?

Deixou-me a pensar, e deixo-vos aqui a minha reflexão.

Não estou decepcionado com todos os franchisadores em Portugal, mas infelizmente constato que apenas uma minoria trabalha bem. Eles existem, são geridos por pessoas honestas, éticas, profissionais e competentes. Mas são de facto uma minoria.

Daí, como em todo, as generalizações tendem a basear-se na experiência com a maioria.

E na maioria dos casos, tenho observado falhas que me fazem questionar os méritos do franchising como um modelo de desenvolvimento para uma área de negócio em Portugal.

Expectativa 1: que o franchisador por já ter experiência, tenha uma pool de fornecedores organizados e me optimize os custos de arranque (obras, equipamento etc).

Realidade: para muitos franchisadores, ajudar alguém a abrir um negócio, é também uma oportunidade de negócio. Muitos aproveitam para colocar margens generosas naquilo que vendem, ou para negociar contrapartidas com os fornecedores que certificam ou recomendam. ´

Esta situação faz com que - nos casos que conheço - saia mais caro a instalação de um negócio em franchising, do que fazer a instalação através do processo normal de busca e negociação com fornecedores. Este aspecto provoca logo que o franchisado arranque com um peso de dívida bancária e logo "custos" mensais superiores a concorrentes seus desvinculados de franchisings.

Isto é mais relevante nos pequenos negócios de bairro, em que muitas vezes mais importante que a marca, é a localização e qualidade de atendimento. É mais relevante nos pequenos negócios de bairro, pois muitas vezes as pessoas iniciam os seus negócios adquirindo equipamentos em segunda mão para reduzir os custos de arranque, ou relegam para uma segunda fase investimentos em obras que não são absolutamente essenciais.

O franchising, após os primeiros anos de actividade começam a ficar com uma sindrome de grandeza que os leva a sugerir a novos franchisados começar logo a pensar em grande, o que muitas vezes pode ser o início do fim.

Por este motivo, nos casos que tenho vindo a conheçer, ser franchisado implica logo desde início um arranque menos favorável do que sendo um operador independente.

Expectativa 2: o franchisador, por já ter experiência, ajudará a optimizar os custos operacionais para maximizar a margem (custos de publicidade, de merchandizing, de recursos humanos, etc).

Realidade: as maiores preocupações do franchisador andarão em temas como a optimização da reputação da marca, a optimização da sua (do franchisador) rentabilidade.

Ou seja, é facil levar um franchisado a gastar demais, quer seja para lhe adquirir mais (ao franchisador) e assim o próprio franchisador melhorar os seus lucros, quer seja por o franchisador não ter grandes preocupações em ajudar a rede a reduzir custos tirando poroveito de possíveis economias de escala, ou porque simplesmente se está nas tintas para isso - não faz parte das sua preocupações, ou porque tem acordado contrapartidas com os fornecedores para si próprio contra a despesa realizada pelos franchisados (por x mil euros de despesa na rede, dás-me y euros de desconto nos produtos ou serviços contratados por mim).

Para além dos aspectos já referidos, podemos simplesmente estar perante o facto de o franchisador não ser competente nesta matéria. Afinal os franchisadores são compostos e liderados por pessoas, humanos como todos os restantes que habitam na terra, e não são franchisadores simplesmente porque são mais inteligentes ou competentes, muitas vezes são porque estavam no sítio certo na hora certa, porque tinham a capacidade financeira para agarrar uma determinada oportunidade, ou porque calharam a conhecer as pessoas certas. Pelo que podem também ser os maiores incompetentes em diversas matérias, e com isto arrastar os franchisados para um caminho sem futuro.

Conforme já referí em posts anteriores, não considero que o franchising seja o melhor modelo para se ter acesso ao capital, trabalho ou conhecimento (ver post Negócios em Franchising: Bom? Máu? Para quem?), pelo que não será a melhor opção para pessoas empreendedoras verdadeiramente competitivas e empenhadas em desenvolver projectos sustentáveis a médio, longo prazo.

Expectativa 3: um franchisador terá mais capacidade de inovar e adaptar o modelo de negócio as novas realidades do que eu individualmente.

Realidade: os fundamentos do planeamento estratégico não são nem ensinados de uma forma sistemática nas faculdades de gestão em Portugal, nem do conhecimento da grande maioria dos profissionais que tenho encontrado nas pequenas e médias empresas Portuguesas.

Felizmente, uma cada vez maior internacionalização dos nossos quadros de todo, a par da integração em multinacionais de referência, faz com que um número significativo de Portuguêses começe a adquirir competências de planeamento estratégico, ao mais alto nível internacional.

Não são estas as pessoas que encontrei na maioria dos franchisadores Portugueses.

Assim, algumas ideias base como ter informação de gestão fiável, ouvir os clientes de forma sistemática e regular, avaliar satisfação com os serviços, estudar de forma séria a emergência ou evolução dos concorrentes, e a busca de novas oportunidades de negócio como parte integrante da dinâmica organizacional, sendo algo relativamente óbvio para muitos quadros de multinacionais, não faz sequer parte das preocupações básicas da generalidade dos franchisadores, e aqueles que têm estas preocupações nem fazem ideia de por onde começar.

Há alguns que procuram consultores para os ajudar nestes e outros temas. Consultores "especializados em franchising", mas a realidade é que muitos destes consultores trazem competências em aspectos muito operacionais, faltando-lhes claramente a componente estratégica que é aquela que dá sustentabilidade a médio longo prazo a um projecto.

Assim, um empreendedor que tenha em si aquele conhecimento que nos coloca numa observação constante do mundo, dos comportamentos, das tendências, provavelmente terá uma capacidade de imprimir inovação no seu negócio a um nível que muitos franchisadores não conseguirão.

Conheço diversos casos em que pessoas deste perfil acabam por ser motores de inovação em redes de franquia, numa situação em que das duas uma: ou o franchisador viu aqui uma oportunidade e deu espaço a estas pessoas para partilhar o seu valor com a rede, ou o franchisador viu estas pessoas como uma ameaça ao seu poder e ascendente sobre os franchisados e as marginalizou e silenciou de modo a não comprometer a visão falsa de que o franchisador "sabe tudo".

Por fim, a importância desproporcionada (quase fundamentalista) que se dá à consistência (todas as unidades no franchising são clones) acaba completamente com qualquer capacidade do franchisado inovar, ou seja, de se adaptar caso o franchisador escolha um rumo insustentável, ou caso a sua geografia específica apresente oportunidades e desafios diferentes da generalidade das geografias onde o franchisador realiza as suas provas de conceito.

Também, o crescimento da rede coloca desafios tais em termos de consistência, que a partir do momento em que a rede passa o pulo inicial de crescimento e o franchisador começa a ficar assoberbado com as novas aberturas, a inovação simplesmente morre, e todo o foco é replicar um modelo que até já pode estar ultrapassado.

Em conclusão, não é no franchising que se conseguem os melhores níveis de inovação.


Assim, de facto estou decepcionado com o franchising na medida em que os casos que tenho vindo a conheçer são de vendedores que têm como grande mérito vender uma ideia a alguém, muitas vezes desprovidos das capacidades necessárias para a executar.

Eu aprendi que o sucesso empresarial vem de uma premissa fundamental: cumprir com o que se promete. Se prometo vender os melhores pasteis de bacalhau do universo, tenho que o cumprir.

Eu não me revejo num modelo em que criamos uma marca com um grafismo extraordinário, um monte de vendedores entusiastas, uma loja bonita e numa boa lcalização, e que atraímos as pessoas a comprar os melhores pasteis de bacalhau, e nem sabemos como os fazer, e muitas vezes os pasteis nem levam bacalhau.

Para mim isto é vender a banha da cobra. É um negócio circunstancial de ocasião, para grandes ganhos a curto prazo sustentado em investimentos mínimos, para expremer enquanto der e depois passar adiante.

Também é uma forma de se ganhar dinheiro, mas simplesmente é uma forma que não é compatível com a minha base de valores, aspirações e ideia de sucesso.

Esta realidade de vendas à pressão, descreve muitos dos franchisings existentes, e por isso estou decepcionado.

NOTA: este post aborda sobretudo os franchisings fundamentalmente de serviços, pois no caso dos franchisings de produtos temos outro tipo de realidades, que já abordei parcialmente em posts anteriores.

1 abraço,
Angatú Guarini (pseudónimo)

domingo, 4 de dezembro de 2011

Contextualização do Franchising em Portugal

Perante os inúmeros artigos sobre como escolher um franchising (inclusive os escritos por mim), a pergunta que mais me tem sido dirigida é: "como é que eu sei o que é suficiente?"

Por exemplo: O franchisador tem capacidade para prestar apoio de marketing?

Se o candidato é novo ao mundo do franchising, é muito provável que não consiga saber o que é ou não suficiente.

Por absurdo, a lua é perto ou longe? Depende, se comparamos com a distancia ao Sol ou à cidade vizinha.
Muitas vezes esquecemo-nos que a noção de dimensão é relativa, ao que é necessário definir um padrão de medida.

Assim, decidi contextualizar o mercado.

Em primeiro há que ter consciência que Portugal é um país de 10 milhões de habitantes, com um PIB per capita de cerca de 18.500 EUR. Comparando com os Estados Unidos da América, o país embrião de muitos dos negócios em franchising de sucesso, temos um país com 309 milhões de habitantes e um PIB per capita de cerca de 47.000 USD.

Daqui podemos fazer uma conta simples.

Se considerarmos que nos EUA um negócio se dirige à classe média (rendimentos entre 30.000 a 40.000 USD / ano), facilmente chegamos à conclusão que temos um mercado potencial de mais de 150 milhões de habitantes. Mesmo que decidamos dividir o país em 3 mercados (costa ocidental, centro, costa oriental), podemos ter 3 master franchisadores a endereçar um mercado potencial de 50 milhões de consumidores.

Se considerarmos ainda que cada unidade franchisada tem o potencial para endereçar 1000 novos consumidores / ano, podemos estar a falar de um negócio que facilmente poderá sustentar 5000 unidades franquiadas por um mínimo de 5 anos.

Tudo isto são contas muito por baixo, mas dão para chegar a uma grande conclusão: qualquer negócio que se monte neste mercado tem uma escala brutal, que permite investimentos em tecnologia, conhecimento e inovação brutais, pois quando diluidos por todas estas unidades representam valores mínimos.

Agora se considerarmos que um recurso qualificado custa tanto em Portugal como nos EUA, que um sistema informático custa tanto em Portugal como nos EUA, e que um conjunto de outros custos de estrutura estão relativamente alinhados quando comparando Portugal com os EUA, facilmente percebemos que não podemos esperar o mesmo tipo de desempenho de qualquer negócio que se monte em Portugal, que esperaríamos de um negócio semelhante nos EUA.

Esta é uma realidade inegável, que em minha opinião define a péssima qualidade da generalidade dos franchising que se encontram em Portugal.

Mesmo que tenhamos um franchisador mais sonhador, a realidade mostrará que certas ideias mais expansionistas simplesmente não são sustentáveis apenas com o mercado Português.

Isto leva a diversos tipos de comportamentos:

  • Temos franchisadores que abrem unidades sem parar, levando a canibalização entre franchisados por apercebem-se que ganham mais com a abertura de novas unidades do que com a manutenção em funcionamento das existentes;
  • Outros simplesmente resumem-se a dar uma marca e produtos para vender, sem mais valor acrescentado, assemelhando a sua oferta mais à criação de uma rede de agentes do que um franchising , sem que exista verdaderiamente inovação, saber fazer ou um conceito inovador;
  • Outros focam-se em internacionalizar o mais rapido possível.
Temos também os casos de master-franchisings de grandes marcas internacionais, em que aí a responsabilidade do master-franchisador em Portugal é apenas transmitir o conhecimento e inovação que recebe da sede internacional (não estou aqui a falar de qualquer marca que esteja em um ou dois outros paises eurupeus, mas sim de marcas verdadeiramente globais).

Apenas no terceiro caso se pode esperar alguma qualidade, bem como no caso das "grandes" marcas internacionais, pois nas restantes, é simplesmente economicamente inviável conseguir sustentar um negócio de sucesso para os franchisados por vários anos. 

A corroborar este facto há a realidade de muitas das grandes marcas globais atribuirem todo o território de Portugal a um franchisador que denominam "area developer", o qual desenvolve uma rede em Portugal assente exclusivamente em unidades próprias.

Ou seja, o mercado Português é de facto muito pequeno (quer em dermos demográficos, quer em termos financeiros) para sustentar um projecto bem estruturado.

Por isso não é de surpreender quer a enorme quantidade de más experiências de franchisados em Portugal (infelizmente ainda com pouca vóz, e intencionalmente omitidos pelos franchisadores que continuam a vernder unidades em cima da omissão da quantidade de insucessos que promovem), quer a quantidade cada vez maior de pessoas que tendo uma boa ideia, procuram parceiros para a desenvolver como uma rede de unidades próprias, fugindo ao franchising como modelo de crescimento.

Tenho recebido diversos contactos face à minha iniciativa de criar este blog, perguntando quem são os bons franchisadores em Portugal, quais os melhores sectores de negócio, mas também recebo muitas perguntas sobre bons advogados em franchising para resolver casos de franchisados que já estão à beira da ruína.

Há que ter consciência do contexto económico-social Português.

São de facto abundantes os maus franchisadores. São todos liderados por pessoas sem excrúpulos ou ética? Não. Há concerteza muitas pessoas boas e bem intencionadas nos "maus franchisadores", mas muitos deles não têm consciência do contexto macro em que estão inseridos, e dessa forma não estão minimamente preparados para a evolução que o seu negócio terá, e especificamente para o desafio de dar estrutura a um negócio que nunca terá a escala de negócios semelhantes noutras geografias.

Assim, é também necessário que os candidatos a franchisados descam à terra nas suas expectativas acerca dos franchisadores: os franchisadores não são donos de formulas milagrosas que darão a garantia de sucesso. Podem dar a estrutura básica para o arranque do negócio, mas a responsabilidade pelo sucesso caberá inteiramente ao franchisado.

1 abraço!
Angatú

domingo, 2 de outubro de 2011

Negócios em Franchising: Bom? Mau? Para quem?

Hoje estava aqui a rever os meus últimos anos de vida, e lembrei-me de uma conversa que recorrentemente vou tendo com alguns amigos mais próximos. Se hoje começasse de novo, utilizaria o franchising como porta de entrada no mundo empresarial?

E a minha resposta é… provavelmente não.

Mas mais importante é, porquê? Muitas vezes uma opção que é má ou errada para uma pessoa ou numa circunstância, poder ser boa para outra.

Neste post vou tentar estruturar a minha percepção do que é o franchising em Portugal, vantagens e inconvenientes, e para quem pode ser uma boa opção.

Para começar, alguns conceitos.

Quando queremos abrir um novo negócio, necessitamos de 3 ingredientes fundamentais:
  • Capital;
  • Conhecimento;
  • Trabalho.
Para se aspirar a ter sucesso, é de todo recomendável que o empreendedor tenha pelo menos 2 destes ingredientes. Ou caso tenha apenas um deles, que o tenha em grande abundância!

O franchising, na perspectiva de quem adere a uma rede existente, pretende preencher a componente de conhecimento.

No entanto, na perspectiva do franchisador, pretende resolver a questão do acesso ao capital e ao trabalho.
De facto o que ambos os lados procuram, na generalidade são coisas diferentes, e nem sempre isso é claro para ambas as partes logo no início da relação, o que é meio caminho andado para haver problemas mais à frente.

Mas, será que o franchising é a única fórmula para os pequenos empresários terem acesso ao conhecimento, e os grandes terem acesso ao trabalho e capital?



Sobre o conhecimento.

Na perspectiva do pequeno empresário, muitas vezes o franchising representa o que se considera ser um contexto mais seguro de acesso ao conhecimento. O modo tradicional de adquirir conhecimento num sector novo para quem não o tem, é contratar um consultor ou um profissional qualificado na área, ou até recrutar um sócio que traga essa valência, para que esses elementos ajudem a montar e estruturar o negócio.

Na generalidade dos casos, o risco de incorporar um sócio que mal se conhece é considerado excessivo. Devido em muito ao típico individualismo, mentalidade feudal da generalidade dos pequenos empresários portugueses, e imaturidade das boas práticas de governo empresarial em Portugal, o orgulho leva habitualmente para escolhas em que estejam sozinhos e não tenha que partilhar o poder.

Por outro lado no recrutamento de um consultor temos o desafio de conseguir arranjar boas referências de modo a não gastar dinheiro à toa, e a dificuldade de efectivamente o conseguir pagar.

Assim, o franchisador apresenta-se como um financiador desse conhecimento. Ou seja, ele ajuda o pequeno empresário a montar o seu negócio, e remunera-se sobre isso durante um conjunto de anos. E eu pergunto, o que sai mais barato? Adquirir um franchising ou recrutar um consultor?

Se formos a calcular os custos dos direitos de entrada e dos royalties ao longo do contrato de franquia a 5 anos, associado aos custos das oportunidades perdidas fruto das limitações que um contrato de franquia implica, eu creio que o franchising por regra sai bem mais caro.

Então porque é que tantas pessoas aderem a franchisings? Existe a ideia de que quem franchisa um negócio é mais credível, está mais estruturado, e é uma opção mais segura. Infelizmente esta não é a realidade, em que a generalidade dos franchisadores têm os seus conceitos pouco amadurecidos, os processos de transmissão de conhecimento mal estruturados, uma compreensão da concorrência e do mercado diminuta, e uma organização excessivamente amadora. Mas quem adere, não sabe isto, e perante as apresentações de powerpoint muito bem estruturadas, e os escritórios convenientemente alugados num local de prestígio, acabam por se ver inebriadas por uma encenação que lhes responde aos seus principais medos e ansiedades.

Tenho observado que os principais fornecedores de equipamentos específicos para um determinado sector de actividade têm demonstrado um maior conhecimento e capacidade de transmissão do mesmo, francamente superior à generalidade dos franchisadores. No entanto, quando se recorre e este tipo de entidades, há que efectivamente haver no empreendedor, um verdadeiro espírito empreendedor, e também aqui a realidade é que muitos dos novos pequenos empresários não são verdadeiros empreendedores.

Em conclusão sobre o acesso ao conhecimento: se o novo pequeno empresário é alguém criativo, com visão estratégica, orientado à acção, habituado a tomar decisões sozinho e assumir as responsabilidades das mesmas, e bom entendedor do mercado, então provavelmente o franchising não é mesmo a melhor opção. Se o novo empresário é alguém que foi empurrado para esta situação por exemplo devido a uma situação de desemprego involuntário, que é alguém habituado a seguir ordens, que necessita de suporte para conseguir tomar decisões, que sente a necessidade de partilhar responsabilidade nas decisões, com pouca vocação criativa e pouca orientação ao mercado, talvez o franchising seja de facto a opção certa.



Sobre o capital (na perspectiva de um franchisador).

Montar qualquer tipo de negócio exige à partida um certo volume de capital. Esse capital pode entrar na empresa por duas vias: dinheiro injectado por investidores, ou dinheiro emprestado por bancos.

Quando alguém tem uma ideia que realmente é boa, e tem a capacidade de a implementar com sucesso, pode dar mais ou menos trabalho, mas não demorará até encontrar candidatos disponíveis para financiar o crescimento dessa ideia.

O franchising surge como um modelo de financiar o crescimento do negócio. A lógica é: procuro futuros gestores operacionais para as unidades de negócio da minha empresa, em que os próprios financiam a construção dessas unidades de negócio, e remuneram o franchisador ao longo da vida da empresa.

Aderir a uma rede de franchising na perspectiva do pequeno empresário faz sentido se:
  • desejo ter o meu próprio negócio, mas não estou preparado para tomar decisões sozinho;
  • venho de um perfil operacional e não tenho capacidade de orientar estrategicamente a minha empresa;
  • não tenho base de conhecimentos nem perfil comportamental para desenhar um novo conceito de negócio de raiz;
  • procuro a segurança de continuar a ter uma figura hierarquicamente acima de mim que me oriente e apoie;
  • gosto de estar operacionalmente nas rédeas do negócio;
  • tenho um perfil fundamentalmente de vendas.
(NOTA: em nenhum dos pontos acima escrevi sobre capital… não foi distracção!)

Na perspectiva da pessoa que cria um conceito de negócio, franchisar o seu negócio faz sentido se:
  • não tenho vontade de liderar eu a expansão do negócio;
  • não consigo encontrar financiadores para o meu crescimento;
  • tenho dificuldades em montar e gerir um negócio geograficamente disperso;
  • não quero correr riscos financeiros na expansão do meu negócio;
  • quero crescer rapidamente e não tenho tempo para esperar o processo normal de amadurecimento de um conceito de negócio.
De facto, quando o empreendedor tem boas competências de gestão, tem um negócio bem estruturado, adopta uma estratégia de crescimento bem sustentada, há outros meios de aceder ao capital. É que para um franchisador, um dos grandes riscos é a falta de controlo sobre a qualidade de serviço, pois cada franchisado é uma entidade jurídica e financeira autónoma, e há sempre um espaço de autonomia no franchisado. Por isso ou escolhe efectivamente franchisados que sejam nitidamente “seguidores” ou terá imensos problemas.

Quanto decidi no passado aderir a um franchising, fi-lo conscientemente e por opção, na expectativa que a opção pelo franchising me trouxesse as seguintes coisas:
  1. Integração numa marca de referência;
  2. Inovação constante do modelo de negócio;
  3. Acesso a conhecimento de primeira linha naquele sector de actividade.
Infelizmente hoje constato que:
  1. A reputação da marca é a reputação da soma dos seus integrantes. Numa rede de franchising, havendo múltiplas entidades, acabaremos por ter uma reputação que em pouco depende de nós. Infelizmente não faltam franchisadores pouco éticos, e franchisados mal estruturados em termos técnicos e de valores, pelo que quem efectivamente quer fazer um bom trabalho, estruturado e numa perspectiva de médio longo prazo, rapidamente conclui que não basta aderir a uma marca que faça muita publicidade, pois mais crítico que isso é aderir a uma marca que crie e mantenha uma reputação excelente.
  2. A generalidade dos franchisings criam uma ideia e vivem à sua sombra por muitos anos. O esforço que representa gerir as tensões dentro da rede, bem como acompanhar um crescimento que habitualmente é alucinante deixa muito pouco tempo para efectivamente inovar o modelo de negócio, pelo que sendo o risco num modelo de franchising fundamentalmente do franchisado, o franchisador explora esta oportunidade até dar e rapidamente lhe vira as costas às primeiras dificuldades e parte para outra (excepção feita a algumas redes internacionais que se implantam em Portugal);
  3. O conhecimento gerado por vezes tem a ver com uma ideia de facto inovadora. No entanto, cada vez mais, o mercado copia e aperfeiçoa, pelo que se não houver uma gestão muito profissional e estruturada, rapidamente um conceito pode ser ultrapassado. Também, por regra, os planos de formação são frágeis, e efectivamente com o alargamento da rede, a capacidade de fazer o conhecimento chegar a toda a rede tende a perder-se.
Por tudo isto, hoje entendo que quer para um franchisador ou franchisado, ou seja, para qualquer indivíduo efectivamente empreendedor, o modelo de franchising como estratégia de crescimento, pode ser uma boa opção de curto prazo, mas habitualmente não é a melhor opção para quem quer desenvolver um modelo que passe ao teste do tempo.



Sobre o trabalho.


Efectivamente, esta é a grande variável quando estamos a falar de franchising.

É quando a variável trabalho é objecto de consenso entre franchisador e franchisado que a opção franchising faz sentido.

Dizia eu também no passado, que alguns franchisings podem ser uma opção para alguém que se posiciona como investidor. Hoje tenho que corrigir, que esta perspectiva de investidor só faz sentido num mercado que apresenta elevada liquidez (ou seja, quando alguém quer vender, existe sempre alguém que quer comprar), o que não é o que está a acontecer neste momento em Portugal e numa boa parte do mundo ocidental.

O franchising é de facto uma boa opção para quem procura auto-emprego. Ou seja, tenho algum dinheiro, quero ter o meu próprio local de trabalho em que possa ter mais escolhas sobre o meu dia-a-dia do que sendo apenas um empregado, e adiro ao franchising, em que encontro no franchisador o meu “chefe” que me orienta e controla, e em que a minha maior mais valia é estar diariamente e operacionalmente no negócio.

Neste cenário, há uma parte fundamental dos custos do negócio que ficam em casa (enquanto franchisado, sendo um dos elementos operacionais da empresa, é menos um salário que pago, e maior a rentabilidade que retiro do negócio).

Num momento em que o contexto é recessivo, esta opção do investidor ir para dentro da operação permite-lhe manter-se competitivo em termos de custos e superar a concorrência.


Conclusões.


O franchising é um bom modelo para quem procura uma oportunidade de auto-emprego e não tem a vontade ou capacidade de começar um projecto de raiz.

O franchising pode ser uma boa oportunidade de aprendizagem acerca do que é ser proprietário de um negócio, pelo que como primeira experiência não deve mobilizar a totalidade do capital do candidato a franchisado, e o mesmo não deve olhar para esta oportunidade como a única.

Franchisar um negócio pode ser uma boa opção para um território não prioritário de expansão, ou para crescimento rápido de um negócio sub-financiado.

Mas claramente o franchising não é a única nem a melhor opção para quem procura:
  • Conhecimento;
  • Capital;
  • Trabalho.
Alternativas:
  1. Conhecimento:
    1. Contrate como funcionário um profissional reputado no sector de actividade onde pretende entrar;
    2. Contrate um consultor especializado;
    3. Procure fornecedores desse sector que tenham serviços conexos.
  2. Capital:
    1. Procure um business angel ou um fundo de capital de risco;
    2. Arranje um sócio;
    3. Financie-se na banca;
    4. Financie-se com o sucesso e rentabilidade do seu próprio negócio.
  3. Trabalho:
    1. Desenvolva internamente os seus futuros quadros;
    2. Recrute em concorrentes;
    3. Recrute em sectores diferentes mas em que os requisitos comportamentais sejam semelhantes ou compatíveis.
O franchising é bom se efectivamente o que ele oferece corresponder ao que você procura. No entanto, e infelizmente, muitas vezes tenta-se vender o franchising por coisas que ele não é.

Leia muito, estude muito, procure conselhos, e sobre tudo, não deixe de falar com muitas pessoas que já tenham passado pela experiência perguntando-lhes efectivamente o que obtiveram de bom, e o que perderam nesta experiência. Perguntem-lhes o que de facto se confirmou face as expectativas iniciais, e o que ficou aquém. Perguntem-lhes o que fariam de diferente.

= = = = = = = = = = // = = = = = = = = = =

Eu por mim, valorizo o facto de ter tido experiências em franchising, mas para mim chega. A falta de liberdade que a experiência de ser franchisado representa, não é compatível com o meu perfil.

Num momento de crise, mais que nunca, estamos entregues a nós.

Muitos franchisadores não estão minimamente preparados para lidar com mudanças estruturais no mercado e contextos recessivos. Muitas das suas soluções não se adequam ao momento em que como país, Portugal está a viver neste momento. E quem paga as contas é o franchisado. Se o franchisador fizer uma opção menos correcta, quem se trama é o franchisado.

Os franchisadores são humanos como todos os restantes, e por isso também erram. Lamentavelmente tenho verificado que a grande maioria tem uma enorme dificuldade em assumir os seus erros (até porque isso pode dar processos em tribunal por parte de franchisados ou representar perdas repentinas de receitas). Isso impede na generalidade dos casos que efectivamente um franchisado possa influir no caminho seguido por uma determinada rede de franchising, o que se agrava com o crescimento dessa rede.

Quer aderir a uma rede de franchising? Força. Mas vá consciente de que terá o seu destino na mão de outros, que a responsabilidade financeira e legal é inteiramente sua, tenha a certeza de que o que efectivamente procura é uma situação de auto-emprego.

E não coloque toda a sua capacidade financeira neste projecto – guarde sempre algum fundo de maneio!

Mais que tudo, assegure logo à entrada uma estratégia de saída.

Espero que estas ideias ajudem nas vossas opções!

1 abraço, Angatú (Pseudónimo)

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Uma outra perspectiva sobre a realidade Palestiniana

Num momento em que a Europa sufoca com algum arrefecimento do consumo, achei impressionante a nova e fresca perspectiva que tive da história das terras da Palestina, e a miséria e discriminação que famílias inteiras vivem aqui tão perto de nós.

Se alguém chegasse a tua casa armado e te dissesse: "sai, pois por não seres da minha religião, esta casa já não pode ser mais tua, e terás que te mudar com os teus filhos e mulher para um lugar distante e remoto", o que farias?

Em Portugal, durante o período do pós 25 de Abril de 1974 (revolução de derrube da ditadura) foram muitas as invasões do novo poder comunista a terras e propriedades dos "latifundiários", em que alguns se viram despojados das suas raízes e heranças de família.

Conheço uma história de um criador de gado do Alentejo, hoje com mais de 70 anos, que me confessava ter passado semanas a dormir encostado à porta de casa com a arma ao ombro para defender a sua casa e a sua família.

Este é um outro lado do conflito palestiniano, que não é habitual ver-se nos telejornais, e que é chocante e inaceitável. Na minha humilde perspectiva, nenhum fim justifica estes meios.

Sou pró-muçulmano ou pró-judeu? Nenhum e ambos. Acredito na tolerância e na multiculturalidade em que povos com histórias distintas coexistem, se respeitam, e em que sobretudo a casa de cada individuo, a sua propriedade privada e o seu direito de nela viver em paz são bens inalienáveis.

Nesta perspectiva, e reconhecendo o direito ao povo Judeu de ter uma terra que chame sua, não posso aceitar que o façam expulsando de sua casa famílias que nelas habitavam à décadas ou séculos.

Fundamentalismo gera fundamentalismo, radicalismo gera radicalismo, intolerância gera intolerância.

Vejam no link anexo um resumo da evolução da divisão do que secularmente eram os territórios da Palestina, hoje vergonhosamente divididos entre o estado da Palestina e de Israel.



O que eu gostaria de ver num futuro? Um estado Palestiniano multi-cultural e multi-religioso em que todas as religiões do mundo coexistem de forma pacífica e democrática, sob uma mesma bandeira, e em que não existam mais muros (nem de preconceitos nem de betão), pois todos os que foram criados no século XX, a história encarregou-se de derrubar. Já devíamos, enquanto povo global, ter aprendido alguma coisa com a história...

Não são estes os temas que habitualmente me levam à escrita, mas não consegui ficar indiferente a este assunto.

Fica aqui o link: http://democraciapolitica.blogspot.com/2010/11/por-que-derrubar-o-muro-da-vergonha-na.html

Abraço do Angatú!

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Apoios públicos ao investimento: uma vantagem ou um pacto com o diabo?

Venho contar-vos aqui uma história real passada em Portugal, digna de um filme de terror.

Imaginem que certo dia, ao se verem desempregados, decidiram responder ao apelo nacional de empreendedorismo e criar o vosso próprio negócio.

Face à escassez de capital, e mediante os “programas de acompanhamento a desempregados” do IEFP (Instituto do Emprego e Formação Profissional), decidem aderir ao programa de apoio público à criação de empresas. Supostamente, este plano pretende auxiliar desempregados empreendedores com projectos viáveis a conseguir criar a sua própria empresa através da comparticipação a fundo perdido de até 60% do investimento, e ainda do pagamento de um valor fixo por posto de trabalho criado (estávamos em 2009).

A opção foi pelo sector do Fitness. O estudo feito revelava que havia falta de oferta numa determinada localidade, e face à prática de exercício físico tender a aumentar consoante as sociedades se tornam mais desenvolvidas, parecia ser uma boa oportunidade.

No plano de negócio, não foi contemplada nenhuma despesa com impostos na fase de arranque, pois face ao código do IVA (Imposto sobre o Valor Acrescentado – que acresce ao preço de venda de todos os produtos e serviços) o Fitness estava taxado a 6%, o que significaria que nunca haveria IVA a pagar ao estado pois o IVA incluído nos serviços adquiridos pela empresa superaria o IVA cobrado aos clientes. Ou seja, até se teria uma pequena conta poupança que acumularia IVA, que se poderia reembolsar de tempos a tempos.

Também, no plano de negócio foi previsto preencher o quadro de pessoal com pessoas com contrato de trabalho, contrariamente à prática do sector em que na generalidade se contratam profissionais independentes como prestadores de serviços pagos à hora, pois ao haver uma equipa contratada, o grupo de trabalho tenderia a ser mais estável, e permitiria uma melhor qualidade de serviços prestados aos clientes finais.
O projecto é feito, é aprovado e dá-se então inicio à criação da empresa e preparação do investimento.

Facto 1 – Condições de pagamento dos apoios do estado:

Passados quase 2 anos de criação da empresa, o estado ainda só pagou pouco mais de metade do valor previsto, tendo sempre pago contra factura/recibo. Ou seja, se alguém está desempregado, não tem dinheiro para começar e por isso é que pede dinheiro ao estado! Se o estado só paga contra factura e recibo, significa que o desempregado tem que conseguir dinheiro para fazer e pagar o trabalho antes de o estado o apoiar?!?!  

A solução neste caso foi solicitar apoio à banca. Como estava desempregado, a banca não lhe emprestava nada. Assim, na expectativa de vir a ter um negócio viável e receber os prometidos apoios públicos, solicitou à família a entrada como avalistas destes empréstimos, tendo consciência que os juros pagos iriam aumentar a pressão sobre a rentabilidade do projecto que não estavam previstos. Face a estarmos a falar de necessidades de curto prazo, foram contratadas contas caucionadas (descobertos autorizados de curto prazo para apoio à tesouraria).

Como até este momento o estado ainda não pagou tudo, e a banca está em pânico, estas contas caucionadas são renovadas a cada 6 meses, e a cada 6 meses os juros sobem, asfixiando a vida desta pequena empresa.

Facto 2 – Alterações de contexto substanciais de responsabilidade exclusiva do estado:

Entretanto o estado decide alterar a categoria de IVA deste sector de actividade. Ou seja, no plano de negócio esta categoria nem tinha sido contemplada como explicado acima. De um momento para o outro o IVA alcança os 23%!!! Ou seja, automaticamente o estado aumenta os custos de contexto e leva 17 pontos percentuais de margem a um negócio que mal iniciou a sua actividade!!!

Mais grave que isto é que mantém um regime de isenção de IVA para empresas municipais e entidades sem fins lucrativos que competem com os privados neste sector. Ou seja, o clube desportivo da localidade aluga a sala de aulas a um professor que depois ao abrigo das regras de funcionamento do clube desportivo (muitas vezes financiados pelas autoridades municipais), criam aulas de fitness para diversos públicos sem qualquer investimento ou risco, sendo não apenas remunerados mas sobretudo desenvolvendo negócios que se vêm a revelar muito rentáveis para esses profissionais. Infelizmente, mas convenientemente, por vezes esses profissionais são funcionários municipais, ou pessoas próximas aos serviços de desporto das câmaras municipais, que desenvolvem estas actividades como uma fonte de rendimento extra.

Também, convenientemente muitas destas receitas não são facturadas, pelo que estas actividades acabam por representar um espaço significativo à economia paralela, acentuado pelo facto de as actividades desportivas deixarem de dar direito a deduções no IRS.

Esta situação configura a mais absurda distorção das boas práticas em termos de regras de concorrência nos mercados desenvolvidos.

Seria mais correcto do estado admitir: este sector de actividade é de utilidade pública e é do domínio exclusivo de entidades públicas ou protocoladas com entidades públicas. Era um modo mais sério de extinguir um sector privado de actividade.

Quem é apoiado, é fiscalizado, cumpre todas as normas e regras de funcionamento, adquire todos os licenciamentos, e funciona completamente dentro da legalidade, e desta forma acaba discriminado negativamente perante o que é a prática comum no mercado, prática esta que muitas vezes é sancionada pelo próprio estado, quer por acção directa quer pela omissão conveniente de alguns serviços quer centrais quer locais nas suas responsabilidades de actuar dentro da legalidade e fiscalizar.

Facto 3 – Política de risco zero pelo estado e risco total para o empreendedor e não funcionamento da justiça:

O estado dá incentivos com duas contrapartidas: os postos de trabalho têm que se manter por 4 anos, bem como a actividade da empresa, senão os sócios serão responsabilizados individualmente pela devolução das verbas. Ou seja, o estado apoia, mas obriga a que os sócios sejam avalistas da operação. O estado apoia, mas não partilha riscos no negócio. O custo do insucesso cai todo unicamente sobre o desempregado empreendedor. Além do que o estado, não aceita alterações ao projecto fruto de alterações no contexto económico.

O correcto seria o estado financiar a empresa, e depois ter a capacidade de auditar, mas sem comprometer o património pessoal existente do proponente. Assim, o estado partilharia o risco. Se a justiça em Portugal funcionasse, caso fossem detectadas irregularidades, os proponentes seria processados e aí sim, procurar-se-ia os bens pessoais dos mesmos para responder às suas responsabilidades.

Como a justiça não funciona, é mais fácil para o estado criar barreiras à entrada e barreiras à saída, que ponham o risco todo do lado do empreendedor. Esta é uma das razões por que o empreendedorismo não arranca a sério em Portugal: o preço a pagar por quem arrisca é alto demais, e quando o estado participa, pior ainda.

Facto 4 – Normas de cálculo dos apoios e estímulo ao despesismo e fraude:

O apoio previsto pelo estado obriga a um certo plano de investimento. Face à consciência do empreendedor, negociou bem com os fornecedores e conseguiu montar o negócio cerca de 15% abaixo do orçamento previsto, o que considerou excelente, pois iria reduzir as necessidades de financiamento. Pois sendo desempregado, as verbas necessárias para completar o investimento para além dos apoios do estado teriam que ser todas financiadas em bancos, bem como os prejuízos operacionais do período de arranque da empresa os quais o estado não comparticipa em nada.

Ora, a regra do estado é que se gastas menos, independentemente de ser por uma razão meritória, o estado paga menos. Tal, do conhecimento que tenho, tem provocado que a generalidade dos projectos apoiados inventem custos adicionais para ir buscar o máximo de dinheiro! No caso do projecto que aqui relato, ser honesto e bom gestor é penalizado.

Facto 5 – Inflexibilidade total do estado de adaptação à nova realidade e fuga à responsabilidade:

Perante todos os factos acima, o empreendedor solicitou ao estado urgência no pagamento das tranches finais do apoio, por um lado para apoiar a tesouraria num momento tão difícil, e por outro para liquidar algumas das contas caucionadas e minimizar os encargos bancários.

A reunião mantida com os responsáveis do IEFP pareceu uma procura incessante de razões para não pagar mais nada, e uma sessão de avivamento de todas as responsabilidades pessoais dos empreendedores em qualquer falha das normas do projecto conforme legislação existente.

Sugeriram que não criássemos todos os postos de trabalho e abdicássemos de alguns pagamentos, advertiram-nos para nos prepararmos pois face a termos poupado no investimento (apesar de ter executado todas as rubricas e os inspectores do IEFP terem confirmado presencialmente na empresa a qualidade do projecto realizado) que teríamos que reembolsar a pronto pagamento (pois, pois cá o estado não aceita receber a prestações) os valores que viessem a calcular que tínhamos recebido a mais.

Facto 6 – Burocracia brutal, cara e prossecutória do estado perante a entidade apoiada:

Em todo este processo há de notar a burocracia imensa e sem sentido que o estado cria. Se falta uma virgula num formulário, o estado não paga. Se o paragrafo X não está como querem, não aprovam esta fase. Se não entregamos certa documentação com certa regularidade, somos multados ou penalizados.

Estes pedidos têm 2 consequências naturais: o surgimento de firmas de consultoria que prestam serviços a troco de recebimento de percentagens sobre as verbas financiadas (muitas das quais contratam consultores externos que em alguns casos são os funcionários que nos próprios serviços acompanham e aprovam os projectos) representando desta forma um acréscimo de custo para o proponente do projecto que se vê num emaranhado de influencias e interesses em que ele é apenas um peão; e por outro lado custos efectivos com serviços solicitados a advogados e contabilistas de forma a conseguir cumprir tudo o que o estado solicita e exige.

Facto 7 – Apoio do estado ao recrutamento:

Comentei acima que uma das obrigações do projecto era a manutenção dos postos de trabalho. Pois foi previsto a contratação de desempregados.

Ora a expectativa era que o estado apoiasse no encontrar dessas pessoas, e que fizesse um papel de consultor de recrutamento. Pois, porque os postos de trabalho têm que ser mantidos por 4 anos, mas se a pessoa que está na função se demitir, temos 45 dias para contratar um novo desempregado involuntário para preencher a vaga, e se não a empresa não o fizer nesse prazo, seria multada!

Neste caso o que se verificou é que o IEFP não enviou um único perfil para entrevista que se encaixasse no que tinha sido solicitado. Mais ainda, enviou pessoas que nem sequer cumpriam os requisitos impostos pelo próprio estado para serem elegíveis nos apoios à contratação concedidos.

Adicionalmente, a mudança estrutural do IVA, faz com que esta pequena empresa seja claramente prejudicada em termos competitivos face aos seus concorrentes. Ajudaria a minimizar o impacto do aumento do IVA o facto de poder contratar profissionais independentes (a recibo verde) tal como é prática comum do mercado, pois o IVA incluído nos custos de profissionais independentes abateria ao IVA recebido.

Como a maior rubrica de custos dos negócios de serviços são as pessoas, o facto é que não só o programa de apoio e as suas regras discrimina negativamente esta empresa face aos seus concorrentes, como cria um claro incentivo à destruição de postos de trabalho e sua substituição por profissionais liberais sem vínculo laboral.


Conclusão – Efectivamente qual o balanço do apoio do estado aos projectos de desempregados empreendedores?

O estado, na minha opinião, e sabendo o peso da palavra que vou utilizar, enquanto entidade abstracta composta pelos seus inúmeros serviços e colaboradores - municipais e nacionais, efectivamente neste caso que aqui vos documento, comportou-se como um verdadeiro agiota, inconsistente, incompetente e inútil. Honestamente, creio que seria mais fácil desenvolver uma relação positiva com um agiota do que com o estado Português.

Do que observei, os esquemas e regras criados, têm servido para alguns mais informados e mais ligados nos serviços públicos se encherem de dinheiro, mas o comportamento do estado neste caso, não contribuiu de forma nenhuma para o sucesso do projecto, e as verbas até este momento recebidas já foram superadas pelos custos que a incompetência, burocracia, atraso nos pagamentos, e incumprimento de expectativas de que a existência do estado neste projecto representou.

Nas palavras deste empreendedor: “contar com o estado para me ajudar??? Nunca mais! Só me têm complicado a vida. Maldita a hora em que fiz esta opção...”

Claro que é apenas um testemunho, mas o que tenho verificado é que este testemunho tem recolhido imensa simpatia de outros que conheço terem recorrido ao mesmo tipo de apoios.

Alguma coisa vai muito errada neste país quando este é o balanço do apoio do estado à criação de novas empresas.

Neste momento este pequeno empreendedor está em mãos com um projecto que se tornou inviável economicamente fruto de uma alteração legislativa (a alteração da categoria de IVA), está amarrado ao estado na obrigação de manter a empresa por 4 anos, está profundamente endividado, não consegue tirar da empresa o base para o seu sustento e caso a empresa feche não terá direito a qualquer apoio social do estado ficando ainda com as dívidas a pesar sobre o seu futuro, tem parte da família envolvida neste projecto em risco de perderem tudo… está simplesmente entre a espada e a parede, e da minha análise sobretudo por razões que lhe são externas na sua maioria de responsabilidade directa ou indirecta do estado.

Dizia também este empreendedor: "Não me queixo da concorrência ou das condições do mercado, pois na medida em que todos competem com as mesmas regras, ganhará o melhor e eu só tenho que demonstrar o meu mérito. Queixo-me sim do estado que a cada dia me cria novas e maiores dificuldades e me discrimina por ter optado por montar um negócio legal e estruturado".

Se podemos acusar este empreendedor de alguma coisa é de ingenuidade: ingenuidade em ter confiado no “estado” quando este se ofereceu para o ajudar.

Mais informação sobre o relacionamento com o estado veja o capítulo “Sobre Portugal - funcionamento do Estado, Função Pública, Justiça e Economia” no índice do blog em http://portugalamazonas.blogspot.com/p/indice-por-temas.html. Recomendamos especificamente os seguintes posts:



Abraço,
Angatú